resistência poética

Somos explorados – e anestesiados – pelo sistema, e violentados pelas ideias do consumo, do lixo, do moralismo, do medo e da imbecilidade, mas quando alguém resolve expor, nesta cidade “suja”, alguma logomarca da sua identidade cultural… A população não só não luta pra defender esse direito, mas realmente acredita que o que vem espontaneamente do povo é sujeira, e aplaude o Estado quando reprime as poucas vozes resistentes a isso tudo.

Quem tem dinheiro pra gastar com publicidade enche a cidade com seus apelos. Quantos “coca cola“, “melhor prefeito” e “imperdível” nós não lemos por dia? E porque é então que se fala do pixo como se a escrita de quem não tem concessão pública, nem dinheiro pra publicidade, e que se expressa fora desse padrão imposto pelos que seguem as leis da lavagem cerebral mais eficaz (estética enlatada), fosse vandalismo?

É o povo contra o povo!

O concreto da cidade recebe dos seres humanos o lixo, o vômito, o cuspe, o tão marcante sangue de morte, de parto, o cérebro dos suicidas de altos andares – que fica preso às gretinhas dos blocos por anos à fio. Se desgasta pelos nossos passos, empretece de diesel desses carros enormes de pessoas doentiamente pequenas…

E não pode suportar a escrita dos guerreiros que resistiram à única padronizada e unificante caligrafia da escola e dos jornais, ao gesto militarizado dos três dedos no lápis, aos nomes registrados e autenticados nos eternos arquivos de seres humanos engavetados!

A cidade é totalmente pixada por empresas e pelo governo.

Já pensaram nisso, os “reaça-sem-causa”?

Por cima de grafites elas vem e pixam suas propagandas que fazem a gente acreditar que é consumindo mais que seremos felizes.
uai, mas desenhar podia e escrever não
Pixador rodar por escrever sua ideia, e ser obrigado a prestar serviço comunitário e a fazer curso de Graffiti pela polícia é o fim. Você ainda acredita nessa “evolução” da palavra pro desenho? A questão é a beleza? De quantas cores você precisa que eu use pra minha ideia ter valor?

Pixos são traços de pessoas que conseguem abrir os olhos pra este mundo errado e dizer “eu existo, não tenho grana pra fazer publicidade, não posso mudar o mundo todo, mas não vou me humilhar diante dos padrões estéticos impostos pelo capital, não vou me silenciar só pra não incomodar ninguém com a verdade.”

É claro que a maioria não diz mensagens explícitas contra o sistema. Mas, da mesma forma, nem toda música precisa ser de protesto. Nem toda arte precisa ser direta pra ser resistência.

E quem pensa que uma coisa não é arte, quando quem faz diz que é, é ignorante, e não o contrário. Mas a discussão sobre o que é arte não leva a lugar algum, a não ser à intolerância e à desunião. Faça seu traço, não atropele ninguém por favor e é tudo nosso.

Tirando a discussão do âmbito do gosto, da crença, dos conceitos, passando pelo respeito… E chegando à questão política, que é o que nos interessa…

Todos temos o direito de nos expressar. E ferir a propriedade privada faz parte do manifesto da contracultura. A pixação é e sempre será marginal na sociedade do consumo. Mas precisamos tomar cuidado com tanta perseguição e intolerância. Voltamos à Santa Inquisição? Deputados roubam milhões, senadores manipulam nossos destinos e acumulam latifúndios, ruralistas consomem todos os nossos recursos naturais. Consumimos toneladas de agrotóxicos por ano. Tribos indígenas são massacradas até hoje. E a população pede leis mais rígidas para punir pixadores. Não é forçação de barra: roubam dinheiro público, roubam saúde pública, roubam nosso tempo de vida, roubam florestas e rios para fazer pasto e plantar cana. Mas são roubos que não vemos, principalmente se estivermos cegos. Um pixo não é um roubo. Fere sua propriedade porque a altera, a questiona. Mas expõe uma face da sociedade que queremos esquecer: a face da diferença, e, anexa a ela, a face da desigualdade, da hipocrisia. Ao mesmo tempo revela toda a fragilidade das crenças contemporâneas no progresso e no acúmulo como solução para tudo. É um crime muito mais grave! Não lhe tira nada… Mas deixa seu rastro, sua marca. O crime é, em si, a marca do criminoso. Só que uma marca que oferece poesia a quem cultiva o olhar.

Que libertem-se os que sabem voar!

Esses que passam o dia vendendo chã de dentro, dando aula de inglês, dando banho em Poodle, desenhando projetos descartáveis – ou brilhantes -, ou mesmo dormindo na aula de história, e que se chamam Everton, Luiz ou Claudinho, que percorrem a cidade ocupando cada canto com os olhos… e que à noite se transformam nos homens-aranha-lagartixa-morcego fortes e sem-medo, nas fadas fortes do submundo.

Heróis resistentes que garantem a cada manhã vidas menos ordinárias aos que ainda não estão cegos por completo.

Que, como os pajés e as mães-de-santo, impedem que o céu caia agora sobre esta babilônia de gente doentia, que pensa que tem tudo e tem cada vez menos.

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3 comentários em “resistência poética

  1. Lindo! Falou bonito demais!

    Essa cidade feia precisa de muito mais pixo pra ficar admirável. Especialmente hoje em dia, quando pra todo lado se vê tantos conterrâneos indiferentes, alheios e passivos diante da normatização uniformizante e esterilizante a que nos sujeitam cada vez mais. Uma submissão horrorosa estampada no sorriso fabricado dos outdoors – que como você disse, são livres pra fazer a poluiçào visual publicitária – e na brancura irritante das mansões vigiadas pelo repugnante poder da intimidação policial.

    Não estacione aqui, não atravesse fora da faixa, não pise na grama, não faça barulho, não ande sozinho, não fale com estranhos, não confie em sujeitos suspeitos, não sente sem consumir, proibido animais nessa loja, não cante no ônibus, proibido deitar no banco do parque, não use o espaço urbano, não ache que você tem direito de ir aonde quiser, não pense em desrespeitar a sagrada propriedade privada…

    Longa vida aos pixadores! Aos corajosos, honestos e poéticos artistas das ruas. Eles sim são cidadãos! Eles sim vivem em comunidade! Eles sim vivem!

    Que a gente aprenda com eles!

  2. OLHE PRO MEU PIXO, NAO OLHE PRO OUTDOR, PROPAGANA NAO, CULTURA DE RUA É MELHOR ….

    ae fasso das minhas palavras a suas … nao saberia falar tao sabiamente …….é o pixo pelo pixo

    á rua tem vida e tem algo q ela esta falando ……

    antes de fazer o rabisco violaram minha liberdade de expressão

    e só quem vive ta ligado !

  3. A expressão é uma lagrima da alma e um apelo contra o cabresto que nos guia na escuridão de nossas mentes acorrentadas. Quero que meu filho tenha um futuro digno e que sua integridade não seja corrompida por violencia nem por repressão

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