Brasil, 1982: A POESIA na transversal da história

“na transversal da cidade PALAVRAS-OBJETOS-COISAS que são também as EMOÇÕES OBJETOS/ABJETAS estampadas nos muros, casas, muretas. para quem quiser e/ou mesmo não quiser ver. (…) sair na calada da noite -PIXAR/PIXANDO como se a rebelião estivesse no fato de buscarmos um outro sentido das palavras. (…) utilização de nosso signo mais intenso. para sermos intensos num só signo”. (Fonseca, 82, p.11)

Trinta anos antes das leis que punem os pixadores como se fossem bandidos, e alimentam a incompreensão e discriminação em torno de seus agentes ( separando a pixação do “graffite”, por exemplo, tratando uma como arte e outra como vandalismo – Lei nº 12.408/11), a escritora e documentarista Cristina Fonseca publicou o livro “A POESIA do ACASO (na transversal da cidade)”, que examina o então recente fenômeno da pixação sob uma perspectiva literária, numa abordagem muito menos preconceituosa e mais bem-disposta a refletir do que os jornalistas e responsáveis pelas políticas públicas se propõem hoje em dia.

Na década de 80, a poesia formada pelo acaso nos muros de São Paulo parecia, aos olhos de Fonseca, um jogo lúdico de linguagem, a valorização do signo, a exploração da sonoridade e da objetividade das palavras, a busca por uma semântica extrema, um gosto mudado, a linguagem da cidade.

O novo grafismo seria uma expressão artística com diversas motivações, e teria tido um percurso histórico bastante difuso, desde as pinturas rupestres, passando pelos corações nas árvores e pelas inscrições pornográficas em banheiros públicos, até as ruas da capital paulista, mas a autora traça em seu livro uma relação entre as manifestações dos universitários franceses em MAIO DE 68, as inscrições nos METRÔS DE NY em 1972, (contemporâneas ao surgimento do Hip Hop) e a explosão do fenômeno em São Paulo em 79.

A escritura nas ruas marcam um intercâmbio entre emissor e receptor (quem escreve e quem lê). “É um intercâmbio brutal, que responde com uma agressão a algo sentido como outra agressão. (…) instaura um debate onde o comprador reage anarquicamente ante a possibilidade de fazer-se ouvir por meio da associação de consumidores.” (Fonseca, 82, p. 17). Aqui, não há espectadores de um lado e atores de outro: participar é também tomar a palavra.


PARIS: Maio de 68

as pichações ao redor e nos muros da Sorbonne (universidade francesa), em maio de 1968, também podem ser consideradas uma ‘guerrilha’ urbana contra o cerco de proibições que havia em Paris desde o séc. XVIII. onde havia muitos “proibido colar cartazes” passou a haver “proibido proibir”, “somem seus rancores e envergonhem-se”, “quanto mais faço amor, mais tenho vontade de fazer a revolução, quanto mais faço a revolução, mais tenho vontade de fazer amor”. POESIA DO ACASO é cheio de exemplos, traduzidos pela própria autora, de manifestações poéticas e de cunho político-ideológico escritas em Nanterre.

“Esses gritos, martelados nas paredes, caiados na pedra, escritos no papel, negavam a política, contestavam a filosofia, a estética, a poesia; criavam. Fórum vertical, democracia da rasura: os acréscimos, as respostas, instituíam um diálogo.” (Fonseca, 82, p. 20)

METRÔS DE NY: 1972

após maio de 68 na frança, surge em NY, em 1972, uma manifestação semelhante de “guerrilha” através da linguagem, só que agora fora das universidades: nos guetos, nos ônibus, galerias e monumentos, mas principalmente, nos metrôs. Em, em vez da linguagem conceitual dos franceses, “apossava-se dos metrôs uma ‘furiosa’ imaginação gráfica, cujas sprayações coloridas chegavam [ocupar] toda a extensão de um vagão.”.  Ao contrário das PALAVRAS-CONCEITOS, as palavras, escritas por jovens negros e latinos, transformavam-se num outro tipo de signo, cuja semântica original não teria tanta importância: apenas nomes seguidos do número da rua (EDDIE 135), e algumas vezes seguidos de um índice de filiação (SNAKE I, SNAKE II, SNAKE XVI…).

para Fonseca, as pichações nos metrôs foram uma rebelião estética de altíssimo nível gráfico, onde a luminosidade do spray fazia as inscrições parecerem NEON. Sua qualidade estética era tão surpreendente que foi elogiada por revistas especializadas, como a francesa “L’ART VIVANT”, de 1973, onde hélène de nicolay escreveu: “se você for a NY, evite os museus. Eles não têm mais nada a mostrar. Ao contrário, a arte está descendo nas ruas, e mesmo mais abaixo – nos metrôs.” (Fonseca, 82, p. 30).

E cita jean baudrillard:

“’trata-se de uma ofensiva tão ‘selvagem’ quanto as revoltas, mas de um outro tipo, uma ofensiva que mudou de conteúdo e de terreno. Estamos face a um novo tipo de intervenção na cidade, não mais como lugar do poder econômico e político, mas sim como espaço/tempo do poder terrorista dos media, dos signos e da cultura dominante’ […] ‘a revolta radical, nestas condições (de escrever nomes sobre o metrô), está inicialmente em dizer: ‘eu existo, eu sou tal, eu habito esta ou aquela rua, eu vivo aqui e agora.’ Mas isso ainda seria apenas a revolta da identidade: combater o anonimato reivindicando um nome e uma realidade próprios. Os grafites vão mais longe: ao anonimato eles não opõem nomes, mas pseudônimos. Eles [buscam sair da combinatória] para voltar à indeterminação contra o sistema – transformar a INDETERMINAÇÃO em EXTERMINAÇÃO. Retorsão, reversão do código segundo a sua própria lógica, no seu próprio terreno. […] KOOL CRAZY CROSS 136, isso não quer dizer nada, isso não é sequer um nome próprio, isso é uma matrícula simbólica feita para derrotar o sistema comum das apelações. (…) é que os grafites são mais ofensivos, mais radicais – eles irrompem na cidade branca, e, sobretudo, eles são transideológicos, transartísticos.”

Os muros negros e porto-riquenhos não eram assinados, mas portavam uma referencia política, cultural e artística. Não têm personalidade a defender, eles defendem desde logo uma comunidade. (Fonseca, 82, p. 30)

*****

trechos da entrevista com Décio Pignatari, em Set/81, publicada no livro

eu comecei, então, a prestar um pouco mais de atenção e a perceber o SPRAY como manifestação válida da CONTRA-CULTURA na sua ligação íntima com a POESIA MARGINAL. Principalmente a POESIA MARGINAL mais avançada, porque grande parte dela é bastante conservadora, careta. Essa é a verdade.

os grafites são um happening. A escritura transformada em evento público. Um espetáculo. Uma forma de TEATRO URBANO ESCRITURAL em que só o fato de se sair de casa com o spray, olhar para o lado vendo se aparece a polícia, a escolha do local da sprayação, a disposição do material, tudo isso prepara o evento que se dá, ainda que seja na calada da noite e ninguém assista, mas para quem executa a carga emocional é muito maior do que escrever num quarto sozinho.

repare que coisa interessante: seria muito bonito captar em fotografia a cidade entre duas escrituras. Em cima, todos os luminosos, embaixo as sprayações. Daria para comparar todo o investimento, caríssimo, que são os luminosos (e que também montam um espetáculo belíssimo no mundo urbano, especialmente no alto dos edifícios) com as pichações luminosas, embaixo, como se fosse LUZ e NÃO-LUZ. A NÃO-LUZ monta um sistema de escritura nas paredes: a NÃO-VENDA. isto é, um mundo puramente cultural, espiritual, opondo-se ao mundo das vendas, e a cidade no meio.

e esta é a ligação entre POESIA CONCRETA e SPRAY: uma CONSCIÊNCIA DO INSTRUMENTO a ser usado. O SPRAY tem mais consciência física da escritura, não uma simples ideia conceitual, por isso a pichação vira FIGURA ICÔNICA. O pichador sabe que tem de estruturar as palavras de maneira que leve em conta alguns parâmetros e limitações, para que a escritura funcione. Ele tem que prestar atenção na textura e rugosidade da parede, no tamanho das letras, na cor do spray. Para ele não interessa qualquer tipo de escritura (…)

“[em MAIO de 68, na França] foi (…) feita por estudantes, mas provocava, naturalmente, um grande sentido de impotência, por ser uma revolução quase que puramente mental, indo para as ruas. (…) dificilmente entenderemos o fenômeno dos grafites de NY, sem considerarmos as grandes tensões raciais, a deterioração da cidade em função de inúmeros problemas, inclusive o da especulação mobiliária.”

“do ponto de vista gráfico, os franceses fizeram como sempre, pois são logocêntricos, ligados à coisa verbal, aos conceitos, às manifestações escritas, onde a qualidade da escritura não conta. Um mundo puramente verbal. […] o domínio, a capacidade [dos instrumentos americanos] é extraordinária, o que possibilitou o inverso da frança: havia muitos grafites escritos, mas o interessante era o NÃO-VERBAL, o ICÕNICO, o NÃO-ESCRITO. Realmente um nível artístico enorme, enquanto, em paris, o problema era filosófico”.

“[no BRASIL,] o SPRAY passa a ser consequência daquilo que surgiu na poesia marginal, e de certas manifestações do tipo contra-cultural e, na verdade, está ligado até ao movimento tropicalista (…). ainda é muito verbal, porque vem de poetas, e a parte visual está fraca. (…) ele ainda está muito no começo, acho que muita coisa ficou por fazer.
Outros recursos virão.

continua…
FONSECA, Cristina. A poesia do acaso (na transversal da cidade). São Paulo: T. A. Queiroz Editor, 1982

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